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Após hospitalização, idosos podem apresentar mais confusão mental

Postado em 4 de abril de 2012 por fleardini em Saúde

Essencialmente, é como se as pessoas se tornassem 10 anos mais velhas, do ponto de vista cognitivo, em relação ao que elas realmente eram antes de uma internação

Muitos idosos temem que uma internação hospitalar prolongada possa deixá-los ainda mais confusos mentalmente do que antes… Infelizmente, não há nenhum motivo para acreditar que esse medo não seja justificado. De acordo com um estudo publicado na revista Neurology – Cognitive decline after hospitalization in a community population of older persons – os pacientes idosos que estão hospitalizados realmente apresentam um risco muito maior de apresentar problemas cognitivos subsequentes, após a internação.

A causa para tanto é desconhecida: tanto a doença que levou o paciente ao hospital, quanto os tratamentos recebidos durante a internação podem contribuir para o aparecimento de problemas cognitivos. Segundo Robert Wilson, autor da pesquisa e professor de Ciências Neurológicas e Comportamentais da Rush University Medical Center, em Chicago, o risco permanece presente por muitos anos, após a internação do idoso.

Para chegar a tais conclusões, Wilson e sua equipe examinaram dados de 1.335 pessoas com 65 anos ou mais, integrantes do Chicago Health and Aging Project, um estudo de longo prazo de doenças crônicas em três bairros racialmente mistos de Chicago. Todos os pacientes foram internados em algum momento do estudo, entre janeiro de 1993 e dezembro de 2007. Todos foram entrevistados a cada três anos, visando a aferição de seu estado mental. Pelo menos uma entrevista ocorreu antes de uma internação e duas entrevistas depois, permitindo que as alterações no estado mental do idoso pudessem ser monitoradas ao longo do tempo da pesquisa.

Segundo as análises dos pesquisadores, a taxa de declínio cognitivo em pacientes com mais idade duplicou depois de uma internação hospitalar, geralmente afetando o pensamento e a memória do paciente. “Essencialmente, é como se as pessoas se tornassem 10 anos mais velhas, do ponto de vista cognitivo, em relação ao que elas realmente eram antes de uma internação”, disse Wilson.

Os pacientes mais vulneráveis a apresentar este declínio cognitivo significativo foram os que tinham doenças mais graves e que ficaram no hospital por longos períodos de tempo, bem como os que começaram a ter falhas de memória e confusão mental, antes de serem internados.

Segundo os pesquisadores, a internação hospitalar pode ajudar a desmascarar e/ou a acelerar problemas cognitivos que anteriormente não haviam sido identificados. É muito importante esclarecer que nem todos os pacientes idosos que vão parar no hospital irão experimentar estes problemas. O regresso para casa, depois de uma estadia muito longa e repleta de cuidados, pode ser normal, sem que o paciente idoso apresente qualquer tipo de deficiência cognitiva.

Efeitos de uma longa internação

“Já sabíamos que uma internação hospitalar longa pode interferir no funcionamento físico de uma pessoa mais idosa, afetando a sua capacidade para desempenhar as chamadas atividades da vida diária: tomar banho, fazer sua higiene corporal, comer, vestir-se, dentre outras atividades. O que esta nova pesquisa faz é adicionar outra camada ao nosso conhecimento, mostrando também que há perda cognitiva decorrente das longas internações”, afirma a médica Renata Diniz, que dirige a VRMedCare, empresa especializada em cuidados domiciliares na terceira idade.

Embora os geriatras e neurologistas pudessem suspeitar desta perda cognitiva antes, não haviam dados fortes o suficiente para estabelecer firmemente este elo, antes deste estudo. “E o que poderia explicar esta perda cognitiva? Um possível culpado é o delirium: uma mudança abrupta no estado mental que ocorre em até 20% dos pacientes hospitalizados, deixando-os muito confusos, desorientados e agitados”, explica Renata Diniz.

“O delirium, antes encarado como transitório, agora, está cada vez mais sendo considerado como uma forma de lesão cerebral que pode mudar a trajetória do seu estado cognitivo, mesmo quando você supostamente se recupera, pode haver um efeito residual”, diz a médica.

Pesquisadores da Universidade de Indiana estão investigando o mecanismo subjacente que provoca a perda cognitiva no idoso. Eles levantam hipóteses de que baixos níveis de oxigênio no cérebro e inflamações que matam os neurônios poderiam explicar os danos posteriores.

“Outra preocupação especial, neste sentido, diz respeito aos medicamentos que os pacientes idosos com doenças agudas recebem em ambientes de cuidados intensivos. Infelizmente, existem poucos estudos sobre os efeitos desses medicamentos sobre a cognição humana”, afirma Vanessa Morais, que também dirige a VRMedCare.

Um outro estudo, publicado em 2010, no The Journal of American Medical Association – Association Between Acute Care and Critical Illness Hospitalization and Cognitive Function in Older Adults – concluiu que os idosos hospitalizados por condições não-críticas eram mais propensos a receber um novo diagnóstico de demência. A pesquisa também destacava a ligação entre pacientes criticamente doentes e o declínio cognitivo.

“Outros fatores também podem contribuir, a longo prazo, para o aparecimento de problemas cognitivos nos idosos, tais como derrames indetectáveis que atingem os pacientes mais velhos, glicemia não controlada e a falta de estimulação da atividade mental, durante o período de internação. Uma vez que existem formas de prevenir o delirium em idosos, bem como os demais problemas mencionados, é provável que parte do declínio cognitivo em pacientes idosos hospitalares possa ser evitado”, destaca a médica Vanessa Morais.

A dura volta para casa

“Para as famílias, o novo estudo serve de alerta: as internações podem ser eventos que mudam completamente o funcionamento mental de uma pessoa idosa daí para frente. Quando um familiar idoso sai do hospital, após uma longa internação, este pode ser um período muito vulnerável para a família e para o idoso. A capacidade cognitiva de seu familiar para realizar determinadas tarefas pode ter sido afetada. Há uma boa chance de que ele apresente mudanças de comportamento, requerendo mais apoio da família”, destaca Vanessa Morais.

Segundo Renata Diniz, neste momento, a presença de um cuidador profissional pode ser indicada. “É preciso compreender que a função do cuidador é acompanhar e auxiliar a pessoa nos seus cuidados diários. O cuidador profissional supervisiona as atividades que o idoso é capaz de fazer e o ajuda nas atividades em que ele necessita de auxílio. Ou seja, faz por ele somente as atividades que o idoso não consegue mais realizar sozinho, estimulando as capacidades funcionais que o idoso ainda preserva”, observa.