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Experimente um novo mundo, de olhos fechados!

Fallback Image

Por Juliana Teixeira Martins

Se não fosse trágico, seria cômico, ou seria cômico se não fosse trágico? Em homenagem ao Dia Nacional do Deficiente Visual, instituído em 13 de dezembro, convido o leitor para fazer alguns testes que possam fazer você enxergar outra realidade. Experimente! FECHE SEUS OLHOS e vamos lá:

01. Assistir televisão

Não se espante se durante os comerciais não souber alguns dos produtos anunciados. No geral, ao menos as músicas são bacanas e você ainda pode dar o troco não os comprando quando finalmente souber do que se tratam. Há muitos filmes que não saberá como terminam, isto porque os letreiros que aparecem nos finais com os desfechos de cada personagem às vezes não são narrados. Use a imaginação e faça o fim da história como bem quiser. Sabe os programas humorísticos que questionam políticos e entrevistam artistas nas coberturas de eventos? É um jogo de charada quase indecifrável, porque nunca identificam essas personalidades.

02. Opções de lazer

Que tal ir a um restaurante? Mas saiba antes o que vai querer comer, porque cardápio em Braille é raro. Não esqueça de usar a criatividade para chamar o garçom que persiste olhar para todos os lados, menos para ver se você precisa de alguma coisa.

Shows, baladas, shoppings, praias, clubes, parques e outros lugares em que há aglomerações exigem armadura e a colaboração do seu sexto sentido, da sua audição, seu olfato e do seu tato para perceber os momentos em que será necessário desviar você e sua bengala de alguém, evitando que tropece nos dois.

Se acontecer, um esbarrão ou um tropeço, calma… Não lhe viram com uma bengala na mão ou, quem viu, provavelmente pensou que era mais um acessório da última moda.

03. Test-drive

Faça um test-drive com uma bengala longa (utilizada por cegos) no quarteirão onde mora. Faça isso de preferência com alguém ao seu lado para evitar qualquer acidente porque com certeza não faltarão buracos, degraus, lixeiras, vasos ornamentais, jardineiras e orelhões, entre tantos outros itens que nos fazem companhia nas calçadas.

Não declare guerra a eles, lembre-se de que esses obstáculos não lhe enxergam e não têm culpa por estarem em seu percurso. Caso resolva atravessar a rua, boa sorte! Torço para que encontre motoristas que respeitem os semáforos e as sinalizações. Caso isso não ocorra, entenda que estão com atenção voltada para o relógio, celular, para a bonitona do carro ao lado e simplesmente não lhe viram…

04. Interação

Que tal interagir um pouco para finalizarmos?

Já vou avisando que surgirão outras deficiências em você… Calma! Ninguém está irritado, gritaram em seu ouvido porque acreditam piamente que você não escuta já que é cego. Assim como quem não enxerga também não fala, porque as perguntas sobre você serão direcionadas ao seu mais novo porta-voz, a pessoa que estiver lhe acompanhando.

Outra novidade? Sente-se e fique à vontade… Pode ter certeza de que farão de tudo para lhe sentar quando chegar a um determinado local e, se recusar, será sem educação. Não seja mal educado, acomode-se e aproveite para “descansar seus olhos que não podem ficar em pé”.

Pronto! Já pode abrir seus olhos e ver que, trágico ou cômico, depende de como encaramos essas e tantas outras situações do nosso cotidiano. Fiquei cega há alguns anos e nesta nova realidade foi difícil até perceber que o processo de aprendizagem não é unilateral. As pessoas que nos cercam realmente não sabem como lidar conosco e têm um grande receio de perguntar, partindo para o campo da dedução ou até da indiferença.

Mas por que esperar do outro? Esclareça, informe, oriente e passe adiante aquilo que é imperceptível aos olhos de quem enxerga e que faz a diferença para nós. É o que entendemos por Educação e o meio para concebermos o que é esta nova cultura de igualdade sobre as oportunidades, do direito de todos ao exercício pleno de cidadania.

Juliana Teixeira Martins, 34, é pedagoga e deficiente visual há cinco anos. Milita pela implantação de políticas de acessibilidade e inclusão social de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. Foi uma das articuladoras pela criação da Secretaria Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência ou Mobilidade Reduzida (SEDEF) de São Caetano do Sul, a primeira da região ABCD.

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