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Preconceito: a crueldade da razão

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*Por Odair J. Comin

O preconceito é um julgamento concebido na ignorância. Tem suas bases plantadas na não aceitação do diferente. É a arrogância em sua face mais cruel. É julgar-se possuidor da verdade. Pensas como eu, és igual a mim, então te aceito. És diferente de mim, então deves morrer. Isso porque o preconceituoso é um ser temeroso, seu temor é de ser aniquilado pelo outro. Acredita que o outro ameaça seu estilo de vida, sua crença, sua verdade, seu modo de ser. Decide matar para não morrer. É uma articulação infundada, engendrada no próprio mundo das ideias, e executada no mundo real com crueldade.

Falamos que o preconceito tem relação com a ignorância, isso não significa deixar de fora a razão. Existe uma monstruosa racionalidade por traz de todo o mal. Isso para dizer que o preconceito é premeditado. Alimentado diariamente com ira, ódio, intolerância. Normalmente começa com comentários maldosos, logo se torna um discurso, um manifesto. Vem a preparação para a “guerra”, e a execução, quando a “oportunidade” se apresenta. A ignorância é cegueira parcial, contudo, a racionalidade consegue enxergar por essas frestas que lhe restam e fazer valer sua pretensa superioridade. É a razão em sua face mais nefasta.

O soberbo se considera acima dos demais, acima da lei, acima da moral, da ética. Querer aniquilar o outro, por vezes esconde frustrações passadas. Este indivíduo, talvez tenha acumulado sentimentos destrutivos, por ter sido humilhado. O que nos leva a pensar que exista a vontade de vingar-se. Verificamos que o arrogante está em guerra consigo mesmo, e necessita levar essa guerra ao outro. O sujeito ativo do preconceito acredita que a diversidade deve ser emparelhada ou eliminada. Não! O diverso deve ser cultivado. O diferente nos enriquece, disso sabemos todos. Porque então, por tantas vezes se deseja aniquilar o diferente? Por certo tal atitude empobrece. O preconceito, portanto, é auto-sabotagem, é um tiro no pé. É a extrema pequenez do homem, como cegos chafurdando em lama, e discutindo sobre quem está mais sujo.

A saída para o preconceito está na permissividade, na aceitação do diferente. Ouvimos o senso comum dizer: não devemos ter preconceitos, somos todos iguais. A verdade é que não somos iguais. Tentamos vender e comprar a ideia de igualdade o tempo todo. Nos enganamos, pois vendemos o diferente como se fosse igual, e não vemos essa igualdade tão apregoada. Somos diferentes, e dai partimos. É-nos imposto que somos iguais, mora ai a gênese do preconceito, porque o real nos prova o contrário. Logo, a impressão de que o diferente precisa ser impugnado. A sociedade cria seus próprios monstros e, depois, claro, precisa combatê-los.

O preconceituoso trabalha para o mal do diferente, não importa se é pela escolha sexual, pela raça, pela religião, pelo partido político, pelo time de futebol ou pela “tribo”. Se não for este, será aquele. O mal está entranhado em seu ser, assim como faz mal a si mesmo, deseja fazê-lo ao outro. É um ser atormentado pelos monstros que criou, e acha que matando o outro, matará o monstro dentro de si. Só o que faz é fortalecê-lo ainda mais. Se o preconceituoso odeia o diferente, o que ele ama então? O semelhante, dirão todos. Sim. Todavia, tal objeto de amor não passa de uma miragem. Seu idealismo o cega.

Tens algum preconceito? Duvide. Duvide de si mesmo, ponha em cheque suas formas de pensar. Pergunte-se: Por que penso da forma que penso? Esta é minha real forma de pensar, ou apenas reproduzo, porque comprei ideias já pensadas e pautadas no ódio? O ódio desagrega, o amor agrega. Portanto, se seus pensares são pautados no amor ou no bem, o diferente é bem vindo, do contrário… Sabemos todas as consequências. Quando agregamos o diferente, é como se desenvolvêssemos anticorpos contra o preconceito. Na medida em que aceitarmos que o diferente habita em nós, aceitaremos que ele também viva fora de nós.

*Odair J. Comin é psicólogo clínico formado pela UniFMU-SP, especializado em hipnoterapia pelo Instituto Milton Erickson de São Paulo, e Practitioner em Programação Neurolinguística. Seu trabalho é centralizado em atendimentos individuais na Clínica Delphos.

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